Há uma mentira piedosa circulando nos corredores religiosos: a de que fé de verdade é aquela que não pergunta nada. A de que quem crê não treme, não duvida, não questiona, não sofre, não entra em crise. Como se a fé fosse um analgésico espiritual, uma espécie de morfina sagrada que cala a alma e silencia a dor.
Mas a fé bíblica não é isso.
A fé não mata a questão.
A questão cabe na fé.
A fé não é o fim das perguntas — é o lugar onde elas são colocadas sem que a pessoa desmorone.
Porque quem ama pergunta. Quem sente pergunta. Quem está vivo pergunta.
E quem está atravessando o vale mais escuro da vida… pergunta gritando.
E então chega o Calvário.
Ali não está um homem fraco.
Ali está o Filho de Deus.
Ali não está um crente confuso.
Ali está o Autor da fé.
E mesmo assim… Ele pergunta.
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
Repare: Jesus não negou Deus.
Ele não abandonou o Pai.
Ele não desistiu do propósito.
Ele perguntou dentro da relação.
A pergunta de Jesus não é blasfêmia — é oração.
É dor em forma de fidelidade.
É sofrimento que não rompe a aliança, apenas expõe a ferida.
E aqui está a parte que provoca:
Se Jesus, o Santo, o perfeito, o sem pecado, teve espaço para perguntar…
quem foi que te convenceu que você só pode crer se não sentir nada?
O problema é que muita gente confunde fé com ausência de conflito.
Mas fé não é ausência de conflito.
Fé é permanência.
É continuar chamando Deus de “meu” mesmo quando tudo parece gritar: “Ele foi embora”.
Porque no grito do Calvário existe uma palavra que muda tudo:
“MEU” Deus.
Jesus não disse: “Deus, onde estás?”
Ele disse: “Deus MEU”.
Ou seja:
a questão era real, mas a aliança era maior.
A fé não é uma explicação pronta.
A fé é uma mão estendida no escuro.
É um coração que sangra, mas não se entrega ao cinismo.
É um espírito esmagado que ainda consegue dizer: “Eu não entendo, mas eu permaneço.”
Tem gente que acha que questionar é sinal de incredulidade.
Mas muitas vezes, questionar é sinal de intimidade.
Porque só pergunta “por quê” quem ainda se importa.
O cético não pergunta. Ele debocha.
O ferido pergunta.
O filho pergunta.
O discípulo pergunta.
O adorador pergunta.
E sabe o que é mais profundo?
O “por quê” de Jesus não foi um tropeço no caminho da fé.
Foi parte do caminho.
A cruz não foi só o lugar onde Jesus salvou o mundo.
Foi o lugar onde Ele santificou a dor humana.
Onde Ele mostrou que fé não é fingir força, é permanecer mesmo sem respostas.
Então, quando você estiver esmagado, confuso, sem entender, e alguém disser:
“Não questiona, só crê…”
Você pode responder com o Calvário:
A fé não mata a questão.
A questão cabe na fé.
E a fé prevalece.
Porque no fim, não é a ausência de perguntas que prova que você crê.
É o fato de que, mesmo perguntando, você ainda está de joelhos.
E se a sua fé hoje só consegue fazer uma oração curta, quebrada e chorada…
Faça como Jesus.
Diga apenas:
“Deus meu…”
E isso já é fé suficiente para atravessar a noite!
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